Area GT

gt do caneta

/cc/
gt do caneta
(Prólogo)
>a noite tava tranquila no morro, uma uva
>fumando um baseado com os irmãos
>o Joe olhou pra minha cara, rindo
>”caralho menor, já tá doidão aí ó”
>os moleques começaram a rir, mandei tomar no cu mas tava rindo também
>eram todos crias
>do nada a bala começou a comer, parceiro
>muito tiro, muito tiro
>a gente se levantou com as peças na mão, barulhando os cana
>olhamo pra baixo e vimo só farda preta subindo
>eram os caveiras
>”puta que pariu” um dos moleques falou
>o outro já tinha saído correndo
>só tinha ficado eu e o Joe
>ele olhou pra mim e falou “corre menor, mete o pé que eu vou segurar esses filha da puta”
>pegou a AK e começou a dar rajada

>lá de baixo a gente ouvia os caveiras gritando que iam nos matar
>entrei num beco cheio de medo, tentando me esconder
>mas nem deu pra eu andar muito quando ouvi um baque
>o Joe caiu no chão, baleado
>voltei pra falar com ele, já com lágrima nos olhos
>foi quando vi um caveira passando por cima dele
>na hora não pensei duas vezes irmão, peguei minha peça e acertei a bala no caveira
>fiz no automático, sem pensar, sem ter controle das minhas ações
>logo depois larguei a pistola e caí sentado no chão
>puta que pariu, eu atirei no caveira
>ele olhou pra mim com uma cara pior que a da morte
>sorriu, com a boca já cheia de sangue
>e caiu de cara no chão, enquanto o sangue ensopava a rua
>fiquei congelado olhando aquela cena por alguns poucos segundos
>mas pra mim pareceram décadas
>eu sabia que não podia ficar de bobeira ali
>meti o pé e me entoquei na casa de um morador lá
>deitei no chão, cobri os ouvidos e fiquei esperando aquele inferno acabar
(Parte I)
>a minha história começou em 1999
>quando eu nasci por um acidente
>minha mãe, uma daquelas piranhas de baile funk
>não tenho vergonha de falar não
>meu pai, um moleque que tinha ganhado seu primeiro salário e foi no baile ostentar
>meteram sem capa, 9 meses a cegonha me trouxe
>que família hein, irmão?
>minha mãe nunca valeu o pau que chupa
>drogada, viciada em pó e depois em pedra
>meu pai no começo tentava ajudar, mas chegou uma hora que nem ele aguentava mais
>começou a beber
>chegava em casa bêbado e enfiava a mão nela e em mim
>era por isso que, ao contrário da maioria dos favelados, eu me amarrava em ir pra escola
>andar na rua
>fazer qualquer coisa irmão, menos ir pra casa
>um belo dia meu pai chegou em casa mais puto que de costume
>e pra ajudar, minha mãe tinha ficado grávida de outro cara
>eu apanhei tanto que fugi de casa
>fiquei rodando de noite na favela, sem ter pra onde ir
>só uma porta abriu pra eu entrar
>a de um moleque chamado Joe
>ele devia ter uns 20 anos, eu tinha 11
>tinha entrado pro tráfico a pedido do próprio dono do morro
>a favela toda respeitava o moleque, que não era lá muito bonito, mas era gente fina pra caralho
>ele me deixou morar com ele o tempo que eu precisasse, com uma condição
>”tu é um moleque inteligente, vai pra escola e estuda. O movimento tá precisando de gente assim”
>”nós é bom em trocar tiro e em meter marra, mas precisamos de algum maluco cabeça para ler, contar, medir, pesar e fazer essas paradas aí tá ligado menor? ‘’
>”to ligado Joe “ eu respondi
>sim, um cara de 20 anos pedindo pra um moleque de 11 fazer a contabilidade da boca
>”então demorou, amanhã eu vou te colocar lá no contexto” ele me falou, dando uma pistola na minha mão
>nessa época eu era moleque ainda, saca?
>minha diversão era pegar ônibus pra Zona Sul, dar um rolé na casa dos bacana
>eu adorava andar com o bondão na frente dos burgueses lá, ficavam escaldadões
>os pm olhando atravessado pra gente
>as patricinha cheia de medo
>porra era muito bom, diversão de pivete é isso aí irmão
>mas o tempo começou a passar
>agora eu tinha novas responsabilidades, novo emprego
>com 11 anos já era ajudante no tráfico da minha favela
>não dava mais pra ficar na rotina de moleque
>até porque, pra preto, pobre e favelado, a vida adulta chega cedo
>nós não tem escolinha, pré vestibular, cursinho de inglês e aula de natação bancado pelo papai não
>não é qualquer um que sobrevive no meu mundo, irmão
>mas eu não sou desses que desiste sem tentar
(Parte II)
>quatro anos se passaram
>muita coisa mudou
>já tinha minha grana, não dependia mais de ninguém
>mas optei morar com o Joe mesmo assim
>ele era tipo um pai
>ou melhor, um irmão mais velho
>o mlk já tinha uns 25 anos, era considerado na favela
>eu na aba dele também tava ganhando meu espaço
>o tráfico no morro tava indo de vento em popa
>os pm tavam barulhando o Chapadão dia sim dia não
>pau no cu deles, CV filhos da puta
>aqui é ADA poha
>o frente do morro era um cara chamado Playboy
>muito inteligente
>ao invés de se preocupar em trocar tiro, ele gastava a energia dele aumentando as vendas de droga
>lucrando mais, fortalecendo o bonde e ajudando a favela
>o resultado foi que os moradores amavam a gente
>o Joe se deu bem nessa, porque era amigo de geral, e então o Playboy precisava dele pra manter o contexto no bagulho
>eu também me dei bem, porque o patrão precisava de alguém pra ficar de frente na contabilidade
>só tinha um cara que não tava feliz com isso
>vamos chama-lo de Lambari
>ele era gerente de uma das bocas do morro
>era um daqueles traficantes que gostava de sangue e de tiroteio
>coisa cada vez mais rara sob a liderança do Playboy
>lógico que ele não iria peitar o patrão abertamente, mas dizia-se que ele tava planejando derrubar o patrão
>e todos que fechassem com ele
>vulgo, eu e Joe
>mas esses boatos não atrapalharam o clima na favela
>no aniversário do patrão, o bonde organizou um super baile
>pica.rar
>regado demais, os melhores dj’s, os melhores mc’s, droga e bebida liberada
>ia chover piranha
>no dia eu e Joe nos arrumamos
>o viado olhou pra mim e abriu um sorrisão
>”vai perder esse cabaço hoje, muleque?’’
>” que cabaço o quê viado, tá maluco?” eu perguntei, meio nervoso
>”ah, não mete essa menor. Porra, nunca te vi com mulher nenhuma”
>”todo o dinheiro que tu ganha tu gasta com essas porras de computador, videogame”
>”porra, hoje tu vai comer alguém”
>eu abri a boca pra retrucar mas ele fez sinal que eu ficasse quieto
>terminamos de nos arrumar e fomos de moto para o baile
>chegando lá, o Joe rapidamente sumiu
>vários mlks e minas rodearam ele e levaram ele pra pista
>o filha da puta era popular
>eu tava sozinho então não tinha muito o que fazer
>fui dar um dois pra ficar na moral e assistir o show
>tava lá quietão na minha, já devia ter passado uma meia hora de que chegamos, quando o Joe aparece do nada
>”coe Caneta, se liga aí, o patrão tá chamando nois lá na casa dele irmão”
>”qual foi Joe que papo é esse viado?” eu perguntei, meio confuso
>”para de conversa e chega junto muleque, não vamo deixar o patrão esperando não”
>colei junto do Joe e fomos pra mansão do patrão
>a mansão dele fica numa elevação no terreno, bem de frente para a pista onde rolava o baile funk
>então era uma pista bem larga onde tava rolando o baile (nos dias de semana é um campinho de futebol), o palco onde tava os mc’s e os dj’s, e, numa elevação do outro lado do palco, de frente pro campo, tinha a mansão dele
>da varanda da casa dele dava pra observar o baile inteiro
>vista privilegiada
>chefe é chefe né, pai?
>chegando lá, os seguranças tiraram nossas armas, revistaram a gente e deixaram a gente entrar
>era uma casa branca de três andares, com o exterior de vidraçaria, coisa linda de se ver
>na varanda, que era grande pra caralho, tava rolando a festinha privê do chefe
>uma proporção de 3 minas pra cada homem, só mulher gata
>não é essas ratas de favela que ficam na pista não
>é mina de zona sul, burguesa que sobe o morro pra ficar doidona e dar pra traficante
>gostam de aventura, ela dizem
>enfim
>o patrão tava sentado numa mesa, com outros dois caras, trocando uma ideia lá
>”coé Joe meu irmãozinho!” ele chamou, com um sorrisão
>”fala tu meu chefe” o Joe respondeu, na humildade
>”chega aí irmão, chega aí, senta aí. Vem tu também, ô Caneta” ele me chamou
>caralho o patrão sabe meu nome
>os dois malucos que tava com ele levantaram e nós sentamos
>”tão curtindo o baile viado, fala aí “ ele perguntou, sem rodeio nenhum
>”porra patrão, tá o mel... só não entendi por que você chamou a gente aqui... aconteceu alguma coisa?”
>a expressão do Playboy mudou, ficou mais séria, deu pra ver que não era brincadeira
>”porra irmão, esses caras aí não tem cabeça pra nada parceiro. Porra, dá pra contar com ninguém nessa favela” ele falou, se inclinando na nossa direção
>”qual foi patrão qual foi?” o Joe perguntou, já entendendo que algo sério deveria ter acontecido
>”os frentes do São Carlos, do Caju e da Coroa vieram falar comigo, tão planejando juntar um bonde pra tomar a Maré. A Pedreira não pode ficar de fora dessa, temos que fortalecer nossa facção”
>traduzindo pra você, que não entende nada, o patrão tava se referindo aos chefes do tráfico dos morros acima, que estavam planejando se juntar pra atacar o Complexo da Maré
>a Maré é, depois do complexo do Alemão, o maior conjunto de favelas da zona norte
>mas, ao contrário do alemão, a maré era toda dividida entre as três facções, que lutavam por ela
>o Comando Vermelho queria toma-la para sedimentar seu poder. Controlando a maré e o alemão, seriam os donos da Zona Norte
>a minha facção, ADA, queria para criar um corredor entre zona norte e zona sul. Ia permitir que escoássemos a droga e as armas para os morros mais lucrativos, fortalecendo nossa facção
>o Terceiro Comando queria para poder proteger e dar cobertura aos seus morros nas redondezas que, por serem isolados, eram vulneráveis aos ataques das outras facções
>”mas eu não posso deixar a favela sozinha... vagabundo não tem capacidade nenhuma aqui, Joe”
>”o único que eu podia deixar era o Lambari, mas aquele viado é maluco, tu sabe bem disso”
>”o bonde do Lambari é forte, patrão, não dá pra gente dar mole com ele” o Joe respondeu, com precaução
>”só pra tu ter uma ideia, irmão, hoje antes do baile, adivinha quem veio me procurar? A Luana, parceiro”
>Luana era a namorada do Lambari
>a mina mais gostosa da favela inteira, linda demais
>mais gata que a namorada do patrão
>todo mundo tava de olho nela, mas ela decidiu ficar com o maluco do Lambari
>”qual foi da ideia patrão?” o Joe perguntou
>”qual foi que o Lambari veio pro baile e não queria trazer ela. Ela não quis deixar ele sair e ele meteu a mão na cara dela, irmão... rancou dois dentes da mina no soco e ainda mandou rasparem a cabeça dela”
>eu e Joe ficamos olhando o patrão, sem conseguir esboçar uma reação
>”ela tá lá no meu quarto, amanhã vou dar a grana pra ela ir fazer o tratamento dentário. Agora fala aí parceiro, como é que eu vou deixar a favela na mão desse maluco? “
>”porra patrão” o Joe respondeu. “manda o Lambari ir fortalecer o bonde que tá indo pra Maré po. É bom que se ele morrer lá, é lucro pra nossa firma”
>”não posso mandar um gerente pra lá. Tá vindo os frentes do são carlos, do caju e do coroa. Se eu não for vai parecer que eu não to comprometido com o bagulho “ o Playboy respondeu
>”porra, então vai você junto com o bonde do Lambari patrão” o Joe retrucou
>”mas aí os caras vão me matar lá né irmão. O fechamento deles é com o Lambari, não é comigo” disse o Playboy
>”então vamo fechar todos os bondes patrão, vamo geral pra lá” o Joe disse, impaciente
>”porra mané, e tu vai desguarnecer a favela? Os filho da puta do Chapadão vão tomar o nossos morro! Aí a gente toma a Maré e perde a Pedreira” ele responde
>o chefe era inteligente, já tinha pensado em todas as possibilidades
>”patrão, por que tu não faz assim então” eu falei
>os dois viraram pra me escutar
>”leva o bonde do Lambari e metade do teu pra lá, porque assim ele não vai poder te matar”
>vocês tomam tudo que puderem na Maré e, quando terminar, você deixa o Lambari lá na contenção pra administrar a favela que vocês tomaram”
>”e você volta pra cá e fica na Pedreira. Porque lá o Lambari vai ser responsabilidade dos outros frentes, então se ele fizer merda ele vai ter que se ver com os malucos do São Carlos”
>”a gente mata dois coelhos com uma cajadada só”
>”boa muleque” o patrão responde, abrindo um sorrisão, enquanto que o Joe me dá um tapinha nas costas. “porra é isso... mas só faltou tu me falar quem vai ficar de frente na Pedreira enquanto eu e Lambari tivermos na Maré”
>”ué patrão” eu respondi “escolhe o cara que tiver mais conceito na favela depois de você”
>nós dois olhamos para o Joe quase que ao mesmo tempo
>o novo frente da favela já tinha sido escolhido
(Parte III)
>”já tá bom de conversa” o Playboy falou, após discutirmos todo o nosso plano
>”ô Stefany! Me ajuda aqui que eu quero meter mas esses dois comédias tão aqui me empatando”
>uma morena linda veio dando risada, abraçou o chefe e falou “olha, vocês são bandidos mas quem vai roubar ele sou eu... vamo lá pra cima, amor” ela falou no ouvido do Playboy
“demorou patrão” o Joe lançou, dando mó risadão “curte lá que eu vou achar uma pra tirar o cabaço desse vacilão aqui” ele falou, apontando pra mim
>fiquei puto e dei um pisão no pé dele
>o chefe e a piranha dele começaram a rir
>”vocês dois são meus convidados. Só escolher a mulher que vocês quiserem” ele disse, e deixou nós dois lá
>”ouviu né viado? Não vou ficar aqui te paparicando não, arranja aí uma mulher pra tu porque a minha eu já achei “ o Joe falou, me largando e chegando numa negona chamada Joyce
>puta que pariu Joe, que mulher é essa que tu chegou
>tu é maneiro pra caralho, mas pra mulher tu tem um mau gosto que puta merda hein
>peguei uma cerveja e fiquei andando de um lado pro outro, olhando lá pra baixo, pro baile
>até que uma vadia colou do meu lado
>”eu vi você falando com o patrão... tu deve ser importante né?”
>olhei pro lado
>”ele chamou e a gente veio, é assim que funciona as coisas po”
>ela deu uma risada
>”meu nome é Amanda.... vamo nos conhecer melhor?” ela perguntou, já com cara de safada
>eu já sabia quem ela era
>era uma amiga da Luana, de vez em quando o Lambari comia ela também
>fiquei receoso “porra, pensei que tu saísse com o Lambari”
>”ah, eu saio as vezes sim... mas hoje eu quero sair é contigo... vai querer ou não? Eu sei que tu me achou gostosa” ela disse, já metendo o mãozão no meu pau
>”ah porra, eu não sei...” eu falei... lógico que eu queria comer a gostosa, mas isso podia dar uma merda...
>”tu não é fechamento do Playboy? Então... para de ser medroso e vamo logo fuder, ou você não é homem o suficiente?”
>porra piranha, não precisava lançar essa também né
>ela me puxou pela mão e foi me levando
>passamos perto da hidromassagem, onde o Joe tava metendo na negona no meio de todo mundo
>ele olhou pra minha cara cheio de malícia
>”vai que é tua muleque” ele falou pra mim por telepatia
>dava pra ler nos olhos dele
>porra Joe
>subi com a Amanda pra um quartinho
>a mulher não me deixou fazer nada
>foi só eu tirar a roupa que ela já chegou chupando
>que porra é essa piranha?
>montou em mim e quicou mais de uma hora
>eu já tinha gozado duas vezes e a vadia não parava
>caralho
>quando ela terminou, fomos dormir exaustos, suados, e eu com um sorrisão imenso na cara
>aí sim muleque
>acordei no dia seguinte com o Joe me chamando
>deixei a piranha dormindo na cama e fui com o parceiro
>lá na pista, tava os bondes reunidos, vários carros e motos, todas as armas entocadas
>fomos em direção ao patrão, que tava trocando uma ideia com os uns caras
>ele nos viu chegando e, colocando a mão no ombro do Joe, falou em alto e bom som para todos ouvirem
>”atenção bandidagem, aqui quem tá falando é o Playboy, o frente da Pedreira”
>”tamo reunido aqui hoje em razão do apoio que nós temos o dever de prestar aos irmãos que tão indo lutar na Maré”
>”eu como sou frente vou puxar o bonde da Pedreira que vai barulhar os alemão na Maré”
>”na minha ausência, vou deixar o morro nas mãos do Joe, meu homem de confiança”
>”geral conhece ele e sabe que o muleque é disposição”
>”disciplina no bagulho e fé em Deus” ele falou, sob aplausos dos seus funcionários
>em pouco tempo, o bonde partiu em direção a Maré, deixando eu, Joe e uns 20 outros bandidos pra tomar conta do morro
>os primeiros dias foram tranquilos, conseguimos levar a situação na moral
>eu aconselhei o Joe a aumentar o arrego pros cana do 41º, pra evitar mal-entendidos na comunidade
>mas a atenção do Rio de Janeiro tava voltada para a Maré
>era tiroteio dia e noite, noite e dia
>o governador deixou a favela em quarentena, estava esperando ajuda do governo federal pra entrar com o Exército
>enquanto não recebia a resposta, a guerra comia lá dentro
>nosso bonde tomou muita boca, mataram muito alemão
>chegava a ser bonito ver a união de vários morros da nossa facção juntos num único ideal
>mas vida de bandido nunca é bonida
>”porra mermão, não sei como tu não cansa dessa porra”
>”o dia inteiro fazendo conta” o Joe falou, me zoando
>”porra viado, alguém tem que ter cérebro aqui nessa porra né” respondi, rindo
>”se arruma aí, vamo descer lá na boca pra fumar umzinho” ele disse, colocando uma camisa
>me arrumei e fui com ele lá
>só não sabia que aquela seria a última vez que eu iria vê-lo
(Parte IV)
>depois de matarem Joe, tudo ficou mais difícil
>eu fui escolhido pra ficar de frente na Pedreira, por ter matado o caveira
>mas eu não tinha cabeça pra mais nada
>me tranquei na nossa casa e fiquei um dia chorando
>caralho mermão, como a vida pode fazer isso?
>tirar de você, na crueldade, a única pessoa que já se importou contigo
>a única pessoa que você tinha
>a única
>o Joe era meu irmão porra, ele era tudo pra mim
>eu tinha 16 anos e tava sozinho no mundo, sem ninguém, e com uma favela inteira dependendo de mim
>tentei manter o contexto no bagulho, mas os outros caras também tavam abalados
>e no final das contas, não faria muita diferença
>alguns dias depois, um bonde embicou pra dentro da favela
>eram os mesmos carros que saíram, o que significa que o patrão tava voltando
>reuni os irmãos e fomos pro pátio receber o patrão
>mas não era o patrão
>era o Lambari
>ele já desceu matando todo mundo, só deixou eu vivo
>”agora tu vem comigo, seu filha da puta” ele disse, me arrastando pra casa do Playboy
>veio ele e mais uns crias dele
>”quer dizer então que tu é fechamento do Playboy e que tá querendo me atrasar no bagulho”
>”tira a mão de mim comédia, nos somos o mesmo fechamento”
>ele me deu um murro na cara que me fez cair no chão
>”mesmo fechamento é o caralho mermão, a intenção de vocês era de me matar naquela porra”
>ele veio pra cima de mim, cheio de ódio
>lambari era um negão alto e forte, com uma cara de mau
>não conhecia a história dele e nem queria conhecer
>só sei que ele me bateu muito naquele dia
>”tu vai sofrer por causa da tua vacilação” ele me falou
>me acorrentou na sala e me expôs como troféu
>trazia os amigos dele pra me bater
>no começo era só porrada
>mas depois foi piorando
>apagavam cigarro na minha pele
>passavam a faca em mim só pra ver o sangue descer
>e vocês imaginam o que eles decidiram fazer depois disso né...
>o filho da puta até trouxe a Luana e a Amanda, as ex namoradas dele
>matou as duas na minha frente
>irmão, você tem ideia do que é isso?
>minha vontade era implorar pra morrer mas não ia dar pra ele esse gostinho
>” quem diria que o comédia aí ia aguentar tanta porrada chefe “ um dos amigos dele disse
>” porra é verdade, pensei que esse viado aí só ficava na caneta e no caderno mesmo “ outro respondeu
>” teria futuro se tivesse fechado com nois, comédia... mas preferiu ficar na covardia e agora vai morrer “ o Lambari emendou
>aquele dia eu tinha certeza que seria meu último
>mas quem disse que a vida é assim, maninho?
>do nada um rajadão de tiro destruiu o vidro da casa
>lá de baixo a gente ouvia os marginais gritando e fugindo
>”corre porra, corre!”
>”sujou, sujou!”
>o viado do Lambari juntou os seguranças dele
>mandou todos saírem e segurarem os canas
>enquanto isso ele ia juntar o dinheiro
>o filho da puta esqueceu de mim e começou a correr de um lado pro outro, alucinado
>jogando a grana dentro de uma bolsa
>e o tiroteio ficando mais e mais intenso
>ocasionalmente um tiro acertava uma parte das vidraças, ou alguma coisa dentro da casa
>até que um barulho forte veio do portão
>Lambari pegou sua Glock e deu uma rajada em direção a porta
>esvaziou a porra do pente, trocando tiro
>mas óbvio que o doente não acertou nada, tremendo do jeito que tava
>vimos um cara entrando, um cara enorme, do tamanho do lambari, com farda preta e cara de puto
>olhei para a identificação dele na farda
>sargento Yuri
>o caveira chegou dando tiro e o Lambari correu, se escorando atrás de uma pilastra bem na minha frente
>mas pelo que parece, o fuzil do caveira também descarregou
>como a vida é irônica, não é mesmo?
>Lambari reparou e não perdeu a chance
>partiu pra cima do caveira, acertando um chute na costela dele
>o pm soltou um urro, mas conseguiu segurar a perna do lambari
>fechou a mão e deu um soco tão forte no lambari que o viado caiu no chão
>o caveira partiu pra cima dele, mas Lambari pegou uma garrafa de cerveja que tava ali do lado e quebrou ela na cabeça do caveira
>o pm caiu no chão do lado dele, com a cabeça sangrando, desorientado
>lambari se levantou e começou a chutar o pm
>eu já tava vendo o pm morrer, com cada chutão que eu tava levando
>mas aí eu vi o inacreditável
>o caveira segurou a perna do lambari e acertou um soco no joelho do fdp
>o soco foi tão forte, mais tão forte, que o osso do viado cortou a pele e saiu pra fora
>fratura exposta
>o filho da puta caiu do meu lado, berrando igual um animal, enquanto o caveira se arrastava na nossa direção pra nos matar
>desesperado, o lambari pega a chave e me solta
>”tem um pente no meu bolso viado, carrega a Glock e mata esse filho da puta!” ele disse, chorando de dor
>eu pego a glock e o pente, e carrego a arma, apontando pro Yuri
>o caveira rasteja, sujando o chão com seu sangue e olhando pra minha cara
>eu encaro o caveira por alguns minutos
>aquele filho da puta
>pego a glock e descarrego ela na cara do Lambari
>dou tiro até desfigurar
>o caveira observa tudo, atônito
>eu encaro ele novamente, e solto a glock ao alcance dele
>lá fora os sons de tiro já estavam acabando
>logo logo a favela estaria cheia de PM
>ao invés de pegar a arma e me matar, ele deita de barriga pro alto e fecha os olhos
>não sei se morreu ou não, mas optou por me deixar vivo
>era só isso que eu queria
>fugi pra mata antes que os caveiras pudessem me encontrar naquela casa
>cambaleando, machucado e sangrando, consegui escapar daquele inferno
>só não sabia aonde que eu iria agora
(Parte V)
>passei a noite na mata, mas na manhã do dia seguinte eu percebi que não dava mais
>ia morrer se permanecesse ali
>porra, pra onde eu vou?
>pra bandido não tem hospital, SUS, essas porras
>já tava fudido, delirando de febre
>fui descendo o morro pela mata até chegar na rua
>catei duas notas de dois que eu tinha no bolso e peguei um ônibus
>o 474
>conhecido na Zona Sul como “quatro sete crack”
>o ônibus que os pivetes pegam pra fazer arrastão na praia
>o ônibus que eu tantas vezes já peguei, em dias melhores
>se fosse pra eu morrer, preferia morrer de frente pro mar
>sentei lá no fundão, e não demorou muito até que eu desmaiasse de dor
>acordei com uma menina me cutucando
>”moço? Moço, você tá bem?” ela perguntava, consternada
>não tive forças pra abrir os olhos
>ela pegou um dos meus braços, colocou por cima do ombro e me carregou
>descemos do ônibus e andamos mais um pouco
>ela carregava meu peso, mesmo eu sentindo que ela era bem menor que eu
>abri os olhos e vi de relance as pessoas na rua olhando atravessado pra nós
>”porra, o que esse neguinho mal-encarado tá fazendo aqui?” elas deviam se perguntar
>foda-se
>eu via tudo em flashes, uma hora estávamos na rua, depois num prédio, num elevador e finalmente numa cama
>deitei e desmaiei, apaguei, não vi mais nada
>quando acordei, eu não sabia aonde estava, que dia era, só sabia que estava de manhã
>”tem alguém aí?” eu perguntei, sem resposta
>caralho, qq eu tô fazendo aqui
>tentei me levantar, mas não consegui, doía muito
>olhei para meu corpo, tava cheio de gaze e bandagens por todo lado
>de repente, ouço o barulho da porta abrindo e depois fechando
>passos vindo na direção do quarto
>e a porta do quarto se abrindo
>”você acordou!” disse a menina, num misto de preocupação e alegria
>”eu fiquei preocupada, achei que não fosse resistir! Você estava muito machucado”
>olhei bem pra ela
>loirinha do olho azul, pele branquinha, devia ter 1,60 de altura, por aí
>magrinha com uns peitos redondinhos, bem diferente das minas da favela que pareciam umas cavalas
>tava usando uma blusinha branca e calça legging azul escura
>”eu fui dar uma corridinha, mas já cheguei. Vou trazer seu café e tomar um banho” ela falou, reparando que eu olhava para ela
>saiu do quarto e voltou alguns minutos mais tarde, com a bandeja cheia de comida
>olhei praquela porra igual um esfomeado
>”caralho, isso é café da manhã?” eu perguntei
>”´é sim...” ela respondeu, meio constrangida “quê foi, não tá do seu agrado? Eu posso pedir alguma coisa se você preferir” ela falou, já vindo pegar a bandeja de volta
>”não porra, é coisa pra caralho, tem mais comida nesse café da manhã do que no almoço que eu costumo comer “
>ela parou e deu uma risada, enquanto eu atacava a comida
>sentou do meu lado e começou a falar
>”então, você deve estar se perguntando quem eu sou né... meu nome é Sophia, eu faço medicina na UFRJ... eu te encontrei no ônibus e vi que você não iria resistir”
>”felizmente não tinha nenhum ferimento muito grave, apesar de você estar todo ferido”
>”te trouxe aqui pra cuidar de você, mas fiquei preocupada porque eu não sabia se você estava indo pra casa da sua família ou se tinha alguém te esperando, enfim”
>eu olhei pra ela, com a boca cheia de comida “tá tranquilo pô, não tinha ninguém me esperando não, valeu aí pela força”
>”você fala engraçado” ela disse, rindo
>”de onde você é?” ela perguntou, me olhando
>caralho, fudeu, ela quer saber de onde eu sou
>quando souber que sou favelado vai ligar pra polícia
>se bem que, com a minha cara, não precisa ser o xeroque rolmes pra deduzir que eu sou do morro
>olhei bem pra cara dela e falei “Sou da Pedreira pô”
>ela me olhou meio confusa
>”desculpa, eu não sou carioca, eu sou de Friburgo... onde fica essa Pedreira? É perto de Copacabana?”
>eu soltei uma risada alta pra cacete
>tá explicado porque a novinha me trouxe pra cá
>é do interior, conhece porra nenhuma do Rio
>”é mais ou menos por aí” eu falei, com sarcasmo
>acho que ela não percebeu
>”então... vamos ao que interessa... que séries você assiste?” ela perguntou, com os olhinhos brilhando
>”quê?” eu perguntei, sem entender nada
>”que séries você assiste, oras? Vai dizer que você não vê série nenhuma na netflix?” ela perguntou, de brincadeira
>mas logo reparou pela minha cara que eu realmente não assistia série nenhuma
>”meu Deus, como você se diverte??”
>eu dei uma risadinha
>”a gente arruma umas coisas lá pra se distrair tia”
>”meu nome é Sophia, muito prazer... e o seu? “ ela perguntou
>”me chama de Caneta que tá maneiro” eu respondi
>”pois bem Caneta, se prepare porque enquanto você estiver aqui você vai assistir séries comigo”
>ela ligou a TV do quarto e sentou no chão, do lado da cama
>colocou na Netflix e começou a colocar as séries que ela gosta
>mermão, eu vi Netflix até o cu fazer bico
>ficamos nessa rotina praticamente a semana inteira
>quando acabaram as séries que ela conhecia, começamos a ver séries novas
>quando acabaram as novas, vimos filmes
>quando enjoamos dos filmes, ela começou a ler pra mim
>ler mano, tu tem noção?
>tu acha que favelado conhece Lovecraft, Stephen King, Edgar Allan Poe?
>a mina ia lendo as histórias comigo e depois ficava perguntando o que eu achava
>percebi que ela era meio solitária, tímida, morando sozinha numa cidade que ela mal conhecia
>e eu tava fazendo companhia pra ela e ela cuidava de mim
>aos poucos fui recuperando o movimento
>tive forças pra ficar em pé e me locomover, com a ajuda dela
>um certo dia, quando eu já estava conseguindo ficar de pé relativamente bem, ela entra no quarto
>alegre
>sorridente
>e de biquíni
>”você já está se recuperando, então hoje vai tomar um banho para ficar bem cheiroso!” ela falou, animada
>”tá, e pra que o biquíni? “ eu perguntei
>”ué, eu vou te dar o banho né...” ela disse
>”você vai me dar banho?”
>”claro! Você não tem força ainda para ficar muito tempo de pé sozinho, especialmente fazendo esforço físico, por menor que seja. Vou lá pra te dar apoio e te ajudar no banho”
>”além disso, seu corpo desacostumou com a temperatura da água, então se houver algum choque térmico, você vai precisar de alguém pra te ajudar”
>”agora seja um bom menino e sente”
>eu sentei na cama enquanto ela vinha, na inocência, tirando a minha roupa
>a menina era boa de coração, dava pra ver que ela fazia aquilo só pra me ajudar
>mas também eu estaria mentindo se dissesse que ela não reparou no tamanho do menino e que ela não dava umas olhadas de vez em quando
>ela tentava disfarçar, mas as bochechinhas brancas dela ficaram tão coradas que nem precisava falar nada
>quando ela ligou a água quente irmão, puta que pariu
>que sensação boa
>ela pegou o sabonete com a mãozinha dela e começou a passar no meu corpo
>”se você é um cara legal quando tá fedido, imagina como vai ser quando tiver limpinho” ela falou, enquanto me limpava
>e ela é boa nessa parada de limpar mano
>mas convenhamos, ela é boa em tudo que ela fez até agora
>que porra é essa, sobrenatural
>chega uma hora que eu começo a encarar ela
>meu corpo cheio de espuma e ela tb toda molhada do chuveiro
>ela repara que eu to olhando pra ela e prende a respiração
>querendo ou não, cria de favela tem um ar intimidador
>enquadrei ela contra a parede
>ela me olhava, congelada, num misto de medo e nervosismo
>encostei minha boca na dela e beijei
>sentia meu corpo fraco, mas me segurei pra não mostrar pra ela
>não queria que ela visse mais fraqueza minha
>ela jogou os braços por cima dos meus ombros
>retribuiu o beijo
>colou o corpo dela no meu enquanto eu a empurrava contra a parede
>e a água quente caindo em cima de nós dois
>de repente senti uma fraqueza
>meus joelhos dobraram
>caí no chão do banheiro
>ela desligou o chuveiro, desesperada, e me levou de volta pra cama
>me secou, me vestiu
>e só parou quando eu insisti que tava tudo bem
>ela disse que precisava sair para resolver alguma coisa, e antes que eu pudesse falar algo ela foi embora
>me senti um merda
>é só preto começar a ver filme americano pra achar que a vida é igual cinema
>com romance e essas porras
>nada a ver irmão
>fiquei sozinho naquela cama pelo resto do dia
>me perguntando o por que de eu ser tão idiota
>o Joe tava certo, eu era um virjão mesmo
>caralho, o Joe
>ainda não tinha caído a ficha de que eu nunca mais o veria
>já tinha passado a hora de eu voltar para a favela, mas algo naquele apartamento me prendia
>quando chegou a noite, eu só sabia olhar pela janela, ver o movimento da zona sul
>me perguntando por onde estaria a Sophia, e se ela me perdoaria pelo meu exagero
>foi aí que ela chegou em casa
>entrou no quarto sem falar comigo e foi direto pro banheiro, onde ela se trancou
>”Sophia, me desculpa!” eu falei alto, pra ela ouvir
>”eu não queria te assustar nem te forçar po”
>”na hora eu não consegui me controlar, eu tive que te beijar”
>”você é a mina mais linda e maravilhosa que eu já conheci”
>”o tempo que eu to passando contigo tá sendo o melhor da minha vida”
>”mas eu traí sua confiança e entendo que tu esteja puta comigo cara”
>”se quiser eu vou embora hoje mesmo, não tem caô”
>”juro, não vou guardar rancor”
>e a porta continuava trancada, como se ela não estivesse ouvindo
>fiquei encarando a porta, magoado por não saber o que fazer e por ter vacilado com a única pessoa que parecia se importar comigo agora que o Joe tinha morrido
>foi quando ela destrancou a porta
>e saiu do banheiro
>nua
>aquele corpo branco dela, como se tivesse sido feito com neve
>sem pelo nenhum abaixo da sobrancelha
>com um jeitinho delicado, quase infantil
>ela me olhou e veio na minha direção, me hipnotizando
>não tinha malícia no jeito dela, não igual às minas da favela
>mas havia um fogo, um fogo diferente
>ela abriu minha calça e montou em cima de mim, encaixando no meu pau
>começou a subir e descer, me beijando e deixando escapar uns gemidos tímidos
>eu sentia o tesão dela, mas também sentia que ela queria me agradar de todas as formas
>depois de gozar, ela fez questão de me chupar até que eu gozasse na boca dela
>e dormiu do meu lado, ainda nua, agarradinha
>se antes eu não sabia se queria voltar para a favela, agora tinha certeza
>meu lugar era aqui, com a minha deusa, o meu amor, a minha Sophia
(Parte VI)
>ficamos mais uns dias nessa rotina
>vendo filme, transando muito e ela me ajudando a me recuperar
>no final da semana seguinte, eu já estava praticamente bem
>conseguia levantar, andar e fazer tudo que eu quisesse sozinho
>ainda não dava pra correr ou sair na mão mas era questão de tempo
>de noite, após mais uma bela sessão de sexo, ela falou pra mim
>”amor, pensei em comemorarmos a sua recuperação...”
>”como assim, princesa?” eu perguntei, enquanto assistia TV
>”tem um casal que mora aqui do lado que são muito amigos meus”
>”e o cara também tava machucado e já está se recuperando”
>”aí eu combinei com a esposa dele de fazermos um jantar para comemorar nossos guerreiros, você e ele”
>olhei para o corpinho lindo dela, com a cabeça dela encostada no meu peito
>”claro amor, pode ser” respondi
>”ótimo... vou marcar amanha com a ju”
>algo nessa história me deixou meio apreensivo, mas deixei pra lá
>era só uma janta, afinal
>no dia seguinte, a Sophia me vestiu com uma roupa que ela tinha lá
>nunca fiquei tão bonito na vida, quem me visse ia poder jurar que não sou favelado
>motorista, talvez, garçom quem sabe, mas jamais traficante
>ela colocou um vestido preto que deixava ela ainda mais linda, se é que isso era possível
>fomos de mãos dadas no apartamento do lado
>quando chegamos, demos logo de cara com a moça
>uma tal de Juliana, aparentemente
>pela barriga, dava pra reparar que estava nos primeiros meses de gravidez
>me cumprimentou de uma forma muito simpática e nos convidou a entrar
>disse que ia chamar o namorado e que já voltava
>fiquei reparando na decoração bonita do apartamento dela, trocando alguma ideia boba com a Sophia quando o impossível aconteceu
>um cara grande entrou na sala, andando de muleta, com bastante dificuldade
>ele me viu na mesma hora que eu o vi
>meu sangue gelou
>era o caveira
>o Yuri, sei lá
>o que quase matou o Lambari
>eu pensei que ele tinha morrido mas o sacana tava vivo
>todo fudido, mas vivo
>”então amor, essa é a Sophia que eu tava te falando, e esse é o namorado dela, o...” a juliana falou
>”Anderson” eu emendei, falando meu nome meio nervosamente
>”esse é o Anderson. Então, vamos nos sentar?”
>nós quatro nos sentamos à mesa enquanto a Juliana nos servia
>eu nunca tinha visto aquele prato lá, ela disse que se chamava “ceviche”
>coisa de rico, foda-se
>”ai meu Deus eu adoro frutos do mar” a Sophia falou, e começou a comer
>a juliana gargalhou, enquanto eu e Yuri nos encarávamos
>com certeza o caveira tava armado, e eu ali de bobeira
>mas ele não ia me matar, não ali, na frente da esposa grávida dele
>”mas então, Anderson, o que aconteceu contigo?” ela me pergunta, de um jeito meio simpático
>”foi acidente de moto, moça” eu respondi, desviando o olhar do Yuri e provando a minha comida de um jeito meio estabanado
>”puxa vida menino, que perigo! Pela sua cara você é novo... quantos anos você tem?” ela perguntou, curiosa
>”16, faço 17 mês que vem” respondi, e ouvi o Yuri bufar do outro lado
>Sophia olhou para o caveira, assustada
>”não se preocupa não amiga, ele é assim mesmo”
>”mas eu não tiro a culpa dele, a rotina é muito estressante”
>”quem fez isso no corpo dele foram os traficantes lá de um morro chamado Pedreira, quase mataram ele, são uns bárbaros, uns verdadeiros animais”
>a Sophia ouviu o nome do morro e imediatamente olhou pra mim, com os olhos bem arregalados
>mas não disse nada
>eu desviei o olhar novamente, tentando disfarçar
>”que foi, amiga, aconteceu alguma coisa?” a Juliana perguntou, notando que todo mundo estava nervoso menos ela
>”não, amiga, não é nada! A propósito, o ceviche está maravilhoso!” a Sophia falou, meio embaraçada
>”ah amiga, que bom que vocês gostaram! Era o prato preferido do meu ex, o Arthur... eu já te contei a história dele, né? Ele e Yuri eram muito amigos, mas o Arthur veio a falecer... e por coincidência foi na mesma favela da Pedreira”
>”quando soube que o Yuri foi pra lá eu fiquei desesperada, mas graças a Deus ele voltou pra casa bem” ela falou, pegando na mão do caveira
>mas ele já tava puto
>levantou bruscamente da mesa e foi andando para o sofá
>Sophia observou aquilo tudo, atônita, enquanto a Juliana tentava amenizar a situação
>”ah amiga, é o estresse pós traumático. É uma coisa muito complicada... você quer vir comigo pra cozinha pra eu te mostrar minhas receitas de frutos do mar? Assim a gente dá um pouco de espaço para os meninos conversarem”
>Sophia olhou pra mim, angustiada, mas a Juliana pegou a mão dela e a levou pra cozinha, me deixando sozinho com o caveira
>ficamos nos encarando por um longo tempo enquanto as meninas conversavam na cozinha
>de repente ele falou, com uma voz meio rouca “chega aí”
>levantei lentamente e fui sentar numa poltrona, perto do lugar que ele estava
>ele me olhou, bem sério, e falou
>”foi você que matou o sargento Costa, não foi?”
>eu sabia que ele tava se referindo ao outro caveira
>”fui eu” respondi, engolindo seco
>”ele era meu amigo”
>”era namorado da juliana”
>”e era o pai do filho dela”
>”você matou o meu melhor amigo” ele disse, com a voz carregada de rancor
>”seu melhor amigo matou o meu melhor amigo” eu contra argumentei
>esse tal de Costa tinha matado o Joe, e eu nunca iria me esquecer disso
>”matou um marginal, e aí?” o Yuri perguntou, com desprezo
>”e você só tá vivo agora porque o marginal aqui decidiu não te matar” eu respondi
>afinal, eu poderia muito bem ter matado ele quando ele tava caído e machucado
>”você sabe que mesmo machucado eu consigo te moer todinho, né? “ ele perguntou, se inclinando na minha direção
>”eu to ligado, caveira... mas se tu for me matar, acho bom fazer isso logo”
>”agora eu sei onde tu mora e se eu der um toque nos irmão eles brotam aqui e matam tu e tua namorada”
>” e aí, qual vai ser? Vai me matar ou não vai? “ perguntei, encarando ele
>ele cobriu o rosto com uma das mãos
>o caveira tava tentando me intimidar, mas dava pra ver que ele tava preocupado com a família dele
>e no final das contas, o bem estar da tal da Juliana valeu mais a pena que a vingança pelo amigo dele
>mesmo com ele tentando tapar o rosto, consegui ver uma única lágrima correndo pela bochecha dele
>e ele sussurrando bem baixinho
>”me perdoa, irmão”
>olhei pro lado, pra dar a ele um pouco de privacidade
>querendo ou não, eu entendia a dor dele
>ele tirou a mão do rosto e falou pra mim
>”o Costa costumava dizer que tudo isso era uma guerra sem fim, que sempre ia ter mais gente querendo matar e querendo morrer”
>”nós dois poderíamos ser amigos, se o destino não tivesse te colocado como meu inimigo”
>”mas tu é guerreiro assim como eu e sabe que entre nós não pode ter amizade alguma”
>”essa noite não tem guerra entre nós, mas se nós nos encontrarmos na pista, atira em mim pra matar, por que eu não vou atirar em tu pra morrer”
>eu assenti com a cabeça, enquanto ele levantava pra ir pro quarto dele
>antes de ele ir embora, eu falei
>”promete pra mim que se eu morrer na guerra tu vai cuidar da Sophia como tu cuida da Juliana?”
>”afinal, somos inimigos, mas as minas não tem nada a ver”
>ele ponderou um pouco, virou e disse
>”eu prometo, vou cuidar da sua mina”
>”obrigado” eu respondi. “prometo que vou cuidar da Juliana também, se você morrer”
>ele olhou pra mim atravessado e disse
>”eu não vou morrer”
(Parte VII)
>”COMO ASSIM, ANDERSON? COMO ASSIM CARA?” a Sophia gritava, em prantos, quando chegamos em casa
>”calma amor, me deixa explicar!”
>”você é bandido, anderson? Você é envolvido com tráfico? “ ela me perguntou, já com os olhos marejados
>não consegui responder
>ela caiu na cama, cobrindo o rostinho com as mãos, chorando e soluçando
>”o que eu fiz com a minha vida?” ela perguntava, entre os soluços
>”por quê isso tá acontecendo comigo?” ela dizia
>”por que??”
>eu cheguei junto dela, ajoelhei do lado dela e comecei a fazer carinho
>”amor, me perdoa por isso”
>”mas não fui eu que escolhi essa vida”
>”e se pudesse voltar no tempo, eu preferia ter morrido no ônibus”
>”assim você não teria se envolvido nisso tudo”
>”mas já que não posso voltar no tempo, juro que vou sumir e nunca mais te procurar”
>”me perdoa por ter atrapalhado a sua vida”
>ela virou, me olhando com os olhos vermelhos, e falou
>”você não entende, né? Seu idiota”
>”eu te amo, é óbvio que não vou conseguir te esquecer”
>”mas eu não nasci pra viver no perigo amor, não nasci pra viver em troca de tiro”
>”não quero ter que cuidar de você toda semana”
>”não vou aguentar ver você ferido”
>”por favor, sai dessa vida... vem morar aqui comigo, amor”
>”eu te banco, eu faço o que você quiser, mas esquece o morro, esquece tudo”
>eu olhei pela janela
>a proposta era tentadora
>passar o resto da vida vendo tv, comendo bem, transando e curtindo a mulher mais linda desse mundo
>que tipo de louco negaria uma chance dessas?
>mas eu tinha que negar
>eu tinha uma missão, irmão
>um propósito
>uma dívida com meu mano Joe
>e um dever a cumprir com a minha favela
>”não posso amor... eu tenho que voltar”
>”eu tenho que ir de volta pra Pedreira”
>ela não se conteve, explodiu em lágrimas
>me abraçou com toda força que seus braços delicados podiam fazer
>”então deixa eu ir contigo, Anderson... deixa eu cuidar de você, deixa eu ficar do seu lado”
>”não me obriga a ficar longe, a ficar me remoendo, todo dia preocupada, sem saber como você está”
>”por favor” ela implorava, olhando nos meus olhos
>eu a abracei firme e disse “amor, nada na minha vida é mais valioso que você”
>”por isso que quero que minha princesa fique aqui, longe do perigo”
>”não posso viver preocupado com a sua vida”
>”prometo que vou te visitar sempre e que vou ficar bem”
>”eu te amo”
>deitei do lado dela na cama e consolei ela
>ela se abriu pra mim, mesmo com lágrimas ainda correndo pela sua bochecha
>fizemos amor pela última vez, curtindo cada segundo de prazer antes da dolorosa partida
>no dia seguinte, levantei da cama de fininho
>beijei ela na bochecha enquanto ela ainda dormia
>e voltei para a Pedreira
>subi o morro de cabeça erguida, pronto para enfrentar o que quer que fosse
>mas não demorou muito para que os seguranças me cercassem e me levassem para o topo do morro
>para a casa do patrão
>ainda dava pra ver as marcas de tiro, mas a casa tinha sido reformada
>estava nova
>entrei sozinho, e lá dentro encontrei o frente
>o único cara que ainda podia trazer ordem pra esse caos
>o Playboy
>ele olhou pra mim e me abraçou como um irmão, mesmo sendo meu superior
>”caralho caneta, que falta tu me fez irmão”
>”tu é um presente de Deus nessa favela”
>”depois de tudo que aconteceu, tanta morte e traição”
>”vou precisar de você do meu lado para reconstruir nossa favela juntos”
>olhei pra ele, com os olhos marejados
>dessa vez íamos fazer a coisa certa
>até comecei a imaginar
>um futuro em breve onde a favela tivesse tranquila
>com um contexto maneiro
>onde eu pudesse trazer a Sophia pra morar aqui
>o Playboy era o cara certo pra liderar a gente
>e, aparentemente, ele achava o mesmo de mim
>me promoveu a gerente geral
>toda a administração do morro tava sob meu comando
>só respondia ao patrão, no caso, ele
>”faz o que tem que ser feito, Caneta” ele me disse, dando carta branca
>eu não dei mole
>dobrei o arrego dos canas pra dar tranquilidade pro morro
>proibi a venda de crack e os assaltos no entorno da favela, pra dar tranquilidade pro asfalto
>organizei um baile bolado toda sexta feira, pra atrair clientela e oferecer entretenimento
>fortaleci a favela, ajudando os moradores necessitados, pra reestabelecer o contexto no bagulho
>regulamentei a venda de gás, internet, tv a cabo e vans, pra poder gerar mais lucro sem prejudicar o morador
>na balança financeira, o saldo foi lá pro alto
>os soldados tavam tudo armado até os dentes, com cordãozão de ouro
>nessa hora que os frentes costumam aproveitar pra tomar outras favelas, mas não eu
>sugeri ao Playboy que fortificássemos a Pedreira
>ia ser nossa fortaleza
>construímos esconderijos em toda a favela e fizemos uma trilha pela mata pra facilitar fugas
>era a época de ouro do nosso morro
>nosso esforço não passou despercebido
>alguns meses depois, veio um toque da Rocinha
>o QG da nossa facção
>convocando o frente e o gerente geral da Pedreira
>vulgo, Playboy e eu
>para uma reunião na alta cúpula da facção
>o Playboy sempre tinha sido um cara considerado, mas o meu nome era desconhecido
>só me conheciam como o cara que matou um caveira
>mas agora iam conhecer meu trabalho
>eu e Playboy partimos pra lá de carro
>eu dirigindo e ele no carona
>”reparei que algo mudou em você, Caneta” ele disse, puxando assunto
>”sei que o Lambari aloprou contigo, até te peço perdão por isso meu mano”
>”mas tem mais coisa aí que tu não me contou”
>continuei dirigindo, sem saber o que dizer
>”acho que tudo que a gente precisa é de um motivo pra viver, patrão” falei
>”o motivo do Lambari era o ódio, o do Joe era a alegria, mas eu nunca soube o meu”
>”só fui descobrir algumas semanas atrás”
>”é muito mais fácil sustentar o peso dessa guerra quando a gente sabe que tem alguém que faz tudo valer a pena”
>o patrão balançou a cabeça, concordando
>”se a bandidagem toda pensasse igual você, Caneta, teria muito menos sangue derramado nas favelas” ele falou, olhando pra fora
>concordei com ele
>quando finalmente chegamos na Rocinha, não teve como não se impressionar
>o Playboy já conhecia a comunidade, mas eu não
>uma favela tão imensa que poderia ser uma cidade
>ele foi me guiando morro acima até chegarmos em uma casa bonita, mas discreta
>paramos o carro e entramos
>os seguranças nos guiaram até uma sala redonda, com uma mesa grande no meio e cercada de poltronas confortáveis que já estavam quase todas ocupadas
>sentei do lado do patrão, enquanto que um homem magro e com grandes olhos começou a falar
>era Nem, o chefe da Rocinha
>”boa noite a todos. Estamos reunidos aqui hoje para traçar as novas diretrizes da nossa facção”
>”nosso eixo de atuação, como todos sabem, tem sido muito direcionado ao complexo da Maré”
>”mas após estudar melhor a situação, cheguei à conclusão de que nossa abordagem pode estar equivocada”
>”enquanto as facções rivais ainda tiverem o controle de favelas nas redondezas da Maré, nunca vamos conseguir tomar todo o complexo, pois sempre que atacarmos eles vão pedir reforços”
>”por outro lado, a Pedreira, sob liderança do Playboy, tem apresentado resultados muito encorajadores”
>”sendo assim, eu proponho que nos juntemos para usar a Pedreira como nossa base de operações para tomar os morros nas cercanias da maré, e aí sim tomarmos o complexo para estabelecer nosso corredor dentro da cidade do Rio”
>o Nem falava como um empresário, nem parecia que nós éramos bandidos
>podia ser uma reunião de diretores de uma empresa qualquer
>a maioria dos outros frentes concordaram com a ideia, menos o Playboy é claro, que não aceitaria que seu morro fosse feito de trampolim para as aventuras dos outros frentes
>”por que não focar os nossos recursos para tomar os morros da Zona Sul, que são muito mais lucrativos?” ele perguntou, de um jeito meio desafiador
>”qualquer tiroteio aqui na Sul dá muito mais visibilidade, é só estourar uma bombinha que já tem mil viaturas em cima da gente, não dá pra barulhar nem fazer guerra por aqui, ia gerar muito prejuízo para nossas favelas” respondeu Nem
>”ah, mas quando é a minha favela que fica no prejuízo não tem problema, né?” ele disse, dessa vez contestando abertamente a autoridade do Nem
>”se você tiver uma ideia melhor, estamos abertos para escuta-la” o Nem respondeu, calmamente
>” eu tenho uma ideia melhor” falei, levantando a mão
>”nossa meta está no caminho certo só que na proporção errada”
>”explique-se” o Nem falou
>”nossa meta desde o começo foi construir o nosso corredor do tráfico entre a Zona Norte a Zona Sul, para multiplicar nossos lucros”
>”mas imagina só o quanto nós enriqueceríamos se parássemos de pensar só na CIDADE do Rio e começássemos a pensar no ESTADO do Rio”
>”se controlarmos as rotas de venda de droga entre São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, nossa facção vai lucrar mais do que qualquer outra”
>”já temos bases em Angra dos Reis e em Macaé, vamos usa-la para fazer o nosso corredor estadual, e ganharmos a força que precisamos pra sufocar nossos rivais”
>olhei para o patrão, nervoso, torcendo pra não ter falado merda
>”o que os senhores acham?” o Nem perguntou aos outros frentes
>”de acordo” disse o Báu da Mineira
>”de acordo” disse o Piloto do São Carlos
>”de acordo” a Sara da Vila Vintém
>”de acordo” o Magno da Coroa
>”de acordo” o Kaká do Caju
>”de acordo” o Batman dos Macacos
>”de acordo” o Sávio do Vidigal
>e finalmente, o Nem se pronunciou. “de acordo”
>minha proposta tinha sido aceita
>ganhei autoridade e prestígio perante os frentes da facção
>e tomei a responsabilidade de levar a nossa bandeira para todo o Estado do Rio
>depois de cumprimentar todos, fui embora com o Playboy, que estava mais quieto que uma múmia
>pegamos o carro e saímos da Rocinha em direção à Pedreira
>”porra, patrão, foi por um triz”
>”eles queriam fazer nossa casa de acampamento”
>”queriam voltar a fazer guerra na Zona Norte e acabar com a tranquilidade da nossa favela”
>”mas foi o que você falou patrão, dessa vez vamos fazer a coisa certa” eu dizia, animado, enquanto o Playboy dirigia por uma estrada escura cercada de mato
>de repente ele para o carro
>”sim, Caneta”
>”dessa vez vamo fazer a coisa certa”
>puxando a pistola, ele dá dois tiros no meu peito antes que eu pudesse reagir
>”eu já vi o Lambari ganhar condição e tentar tomar o meu lugar”
>”não vou deixar isso acontecer novamente”
>”desculpa irmão, mas to te matando como herói antes que tu se torne o vilão”
>”não existe lealdade no crime, é matar ou morrer”
>”então eu tenho que te matar pra não ter que morrer”
>”me perdoa”
>ele me jogou pra fora do carro e foi embora, me deixando na estrada de terra
>virei pro alto, olhando pras estrelas e chorando
>não vou poder cumprir minha promessa com a Sophia
>não vou poder cuidar dela, levar ela pra minha casa, mostrar a ela meu mundo
>meu corpo vai ficando frio enquanto o sangue sai do meu corpo
>olho pras estrelas, que brilham fraco no céu
>pelo menos havia uma pessoa com quem eu ainda podia contar
>uma pessoa que eu tinha certeza que não ia me trair e que ia manter sua palavra
>e por mais bizarro que isso seja, essa pessoa era meu inimigo
>era um caveira
>o Yuri
>cuida da minha mina, mano
>to indo pro céu pedir perdão pro teu irmão Costa

>Atenção todo conteúdo deste post é 100% falso, são apenas historias inventadas, JAMAIS tente fazer o que contém nessas historias porque isso é crime, e os organizadores do site não fazem qualquer tipo de apologia ao crime, inclusive nossa conduta é oposta a da pratica do crime.

gt do caneta

Deixe uma resposta